Não somos cordiais

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Não somos cordiais como insinuam petistas e reformistas!

Por Hertz Dias – Vocalista do Gíria Vermelha e membro da Secretaria de Negros e negras do PSTU

“(…) os firmes proletários revolucionários, adotam uma atitude séria em relação a teoria, analisam as circunstâncias e aprendem por si mesmos antes de ensinar aos outros. A burocracia stalinista há muito tempo substituiu uma combinação de ignorância e arrogância pelo marxismo” (Trotsky, Sobre as Teses Sul-africanas).

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Abaporu – Tarsila do Amaral

Em nossa opinião, desconhecimento e arrogância também se combinaram na literatura que quase toda a esquerda elaborou nos últimos anos sobre o proletariado brasileiro. Aberto ou veladamente os negros e negras estavam no foco dessas elaborações, mesmo quando não citados. Nelas quase nada era possível, quase tudo era pessimismo!

A queda da presidenta Dilma, sem reação popular, e a derrota eleitoral do PT em 2016, seria a confirmação apocalíptica de que o crânio do homo sapiens periférico havia diminuído enquanto sua relação cordial com a burguesia havia se agigantado[1]. A ofensiva de Temer para impor as Reformas do Ensino Médio, Trabalhista e Previdenciária reforçava essa tese, como se Dilma nada tivesse a ver com tais reformas.

O proletariado, sem direito a se defender, mais parecia um presunto esticado numa mesa de autópsia para ser estudado de qualquer modo e por qualquer um. Desses estudos, que tem como foco a ofensiva burguesa e a apatia do proletariado, choveu artigos, ensaios e até livros. Não restava dúvidas: uma onda conservadora ganhava o país e para lutar contra ela todos os partidos de esquerda e movimentos sociais deveriam se unir, sobretudo ao PT, a principal vítima dos “golpes” da Direita. O PSTU por não aderir a esses argumentos foi tão achincalhado quanto o próprio proletariado brasileiro.

Sabemos que muitos militantes honestos passaram a defender essa tese e a partir dela tentaram se localizarem politicamente movidos pela constatação da existência de um genocídio negro e indígenas em nosso país e uma escalada de homicídios praticados contra transexuais e mulheres negras. Mas, é importante que se diga: não foi do martírio do oprimidos que nasceu a tese da “Onda Conservadora”, e sim do martírio político do petismo.

As linhas que seguem, é justamente para rebater o método asqueroso, a forma desrespeitosa e os argumentos racistas que muitos círculos intelectuais, midiáticos e da esquerda reformista utilizaram para defender uma tese que hoje tenta subir a rua Baldwin Street, a mais íngreme do mundo, com carro em ponto morto. Como já dito, mais do que defender uma tese, buscavam defender um partido que apunhalava e retorcia o punhal cravado nas costas da classe trabalhadora, o PT.

A capa da Revista Le Monde nº 111 foi emblemática. Nela estava estampada um homem negro, periférico, deformado e idiotizado, representando a espécie responsável pela derrota do PT nas eleições de 2016 e a subida da Direita ao poder. Esse tipo sub-humano seria também um tipo masoquista, desequilibrado e morto de amor pelos chicotes da Direita. A capa da Revista anunciava o conteúdo da principal matéria “Reforma Trabalhista” e o negro idiotizado feliz da vida dizia “Dias melhores virão! Para os patrões”. Felizmente, a greve do dia 28 de Abril contra as Reformas de Temer rasgou e jogou essa matéria no lixo da história.

Arrastados por essa mesma ideologia, muitos setores ditos marxistas respondiam no mesmo tom. Por exemplo, os argumentos utilizados para explicar a vitória de Dória (PSDB) na periferia de São Paulo era de causar nojo. Descartava-se, desonestamente, o peso das abstenções, dos votos nulos, e das traições do PT. Nessa mesma direção e com um certo tom de ironia diziam que a realização de uma Greve Geral no Brasil não passava de loucura defendida pelo PSTU. Ora, se o proletariado brasileiro não tem tradição de fazer greve geral, imaginem com o chip do conservadorismo instalado na sua consciência.

Assim, os obstáculos para a realização de uma Greve Geral no Brasil não estaria nas amarras que a burocracia sindical impunha à luta dos trabalhadores, mas na falta de disposição dos próprios trabalhadores para a luta! Mais uma vez a culpa era da classe, porém, mais uma vez o dia 28 mostrou o oposto.

Uma versão sofisticada e não menos racista do negro brasileiro como homem cordial havia ganhado muita força no interior desses círculos brancos e intelectualizados, ainda que entre os negros prevalecesse o enfrentamento aberto a esse tipo de ideologia ou ao mito da democracia racial que em determinados contextos funciona como “colchão” para suavizar o enfrentamento entre as classes e em outros como “cobertor de luxo” do racismo ou da resistência negra. A tese de “Onda Conservadora” cumpriu essa segunda função: a de tentar encobrir as importantes lutas negras e operárias que estavam em curso por todo o país. Se os negros apanham e não reagem, é porque são cordiais com seus inimigos de classe, não há outra conclusão a se tirar dessa situação.

A realidade concreta, material, o ódio aos políticos, nada interessava a esses senhores, nem mesmo os dados oficiais que demonstravam a inconfiabilidade que a maioria da população brasileira tinha para com as principais instituições burguesas (presidência, parlamento, mídia escrita, judiciário, polícia, etc.). Até para as tão festejadas “Jornadas de Junho” a burguesia havia emitido o seu atestado de óbito que muitos desses intelectuais assinaram embaixo.

Apenas as movimentações dos “amarelinhos”, expressiva é verdade, merecia algum tipo de análise, geralmente exagerada. Para o proletariado, o negro em especial, bastava um divã, uma urna eletrônica ou uma fita métrica para medir o tamanho do seu crânio e mensurar o nível de sua consciência. Marx e Lênin dariam lugar a Hegel e Gobineau nesse método de análise idealista e racista da realidade.

A Revista Carta Capital foi além em seu ódio aos pobres e aos negros. Logo na capa da edição nº 926 está estampada “Pobre Povo Brasileiro. As Eleições municipais provavam sua incapacidade de agir politicamente e entender que os golpistas os escolhem como vítima. E pobre Brasil…” No interior da revista o título da matéria não poderia ser mais enfático: “O povo deixa-se sacrificar”.

Em tom de espanto afirmavam “é a negação da política” já que os “votos nulos e em branco, somados amiúde superam os válidos”, o que levou os sabichões a concluírem que:

“A maioria dos brasileiros ignora que país o Brasil é. A porção majoritária da população não está a negar a política, nunca se aproximou dela, isto sim, nunca foi capaz de entendê-la como um meio de expressão indispensável, passível de lhe oferecer a chance de manifestar suas vontades e defender os seus interesses, a não ser quando escolheu Luiz Inácio Lula da Silva e quem mais apoiasse”

Nessa lógica, fazer política limita-se a votar, de preferência no PT. Como todo pensamento preconceituoso, esse também é a-histórico, pois, ninguém mais do que negros, negras e indígenas estão a fazer política neste país mesmos antes de existir sistema político eleitoral. Ou as rebeliões nas senzalas, a construção dos quilombos, as insurreições populares, Canudos, Contestado, etc., não significa absolutamente nada no “Fazer política”? Também não significa absolutamente nada as milhares de greves ocorridas no país nos últimos 7 anos? A ruptura de massas do operariado com petismo não seria uma atitude político progressista? Parece que não! Pelo contrário, a derrota de Lula seria expressão da “(…) peculiaridade de um país-continente, onde casa-grande e senzala continuam de pé, e uma não subsiste sem a outra”.

Assim, o negro sub-humano da Capa do Le Monde teve seu comportamento psíquico-social mapeado nos argumentos da Revista Carta Capital. Ele é negro e nordestino, já que o problema está na Senzala (periferia) e no país-continente (provavelmente na sua parte nordestina) que treme diante do poder e é incapaz de caminhar com as próprias pernas. Seguindo o caminho racista que escolheram para explicar a derrota do PT, dispararam:

“Trata-se da costumeira aposta na ignorância da senzala, no seu temor visceral diante do poder, este a se valer da ausência secular de lideranças capazes de levar os desvalidos a conscientizar sua situação e a vislumbrar na política, entregue a líderes dignos, sua necessidade urgente.”

Tomando caminhos diferentes, uma mais e outros menos arrogantes, uma mais e outros menos preconceituosos, a conclusão que muitas das organizações da esquerda brasileira e seus mais variados círculos intelectuais chegaram sobre a realidade brasileira pode ser sintetizada nas seguintes palavras da referida revista: “(…) somos céticos no pensamento, até admitir que, se mudança houver, poderá ser para pior”.

Felizmente houve mudança no comportamento político da classe trabalhadora e não foi pra pior. O dia 28 de Abril foi histórico e emblemático. Histórico porque mais de 40 milhões de trabalhadores cruzaram os braços, provocando um prejuízo de 5 bilhões para a burguesia e, o mais importante, mostrou a força do batalhão pesado da classe, os operários. Emblemático porque conseguiu estabelecer uma importante aliança: a operária, popular, indígena e quilombola que o petismo havia desarticulado. Mais uma vez a realidade foi implacável com os prognósticos pessimistas de quem jamais depositaria qualquer confiança na “ignorância da senzala”. Dia 24/05, as senzalas e quilombos estarão cara a cara com a “Casa Grande” na capital da colônia.

Priorizar os resultados das urnas passou a ser o método privilegiado para esses grupos extraírem suas conclusões sobre a luta de classe em curso. Os mais otimistas entre os pessimistas reconheciam apenas que haviam “lutas defensivas”. A ofensiva burguesa para sair da crise caracterizam como uma “Onda Conservadora”. A luta de classe parecia ser de uma classe só. Entraram com malas e cuias em um beco teórico sem saída. Nele, o “Fora Todos Eles” era sectário, o chamado a Greve Geral, um delírio, e a construção do Comitês populares nos bairros, uma utopia reacionária. Venceu o sectarismo, o delírio e a utopia.

Um profundo abismo separa as elaborações desses grupos da realidade concreta do proletariado. O que borbulha por baixo, onde pouco se escreve do muito que se faz, é desonestamente omitido nos escritos arrogantes daqueles que desconhecem a realidade, mas tem autoridade intelectual e arrogância política para descrevê-la ao seu modo.

A luta contra o genocídio negro, as greves nas fábricas, a força política advinda da crescente auto identidade racial, o ativismo das mulheres negras da periferia, tudo isso precisava ser menosprezado para que a hipótese da cordialidade e a tese do conservadorismo não virassem “pó teórico”. Dois mundos completamente antagônicos ergueram-se, o das Teses e o da Realidade. O primeiro tentava se afirmar na força do argumento, o segundo no argumento da força. As últimas mobilizações, especialmente da classe operária e do movimento social, mostraram o quanto o argumento da força importa para nossa classe.

O mais grave, no entanto, é constatar que aqueles que diziam que vivíamos um “tsunami conservador”, agora priorizam o campo das eleições, justamente onde a reação burguesa melhor se acomoda.

Sendo assim, quem é mais conservador? Quem privilegiou o campo da ação direta ou os que priorizaram o campo da reação democrática junto com Lula e o PT? Em qual dos dois campos a burguesia joga melhor, na luta ou nas eleições? Em qual desses dois campos o proletariado se sente mais em casa? E o projeto Lula 2018, atende aos interesses de qual classe social? Quem está sendo mais cordial com os “de cima”, o proletariado, que está a rejeitar em mais de 90% o projeto da burguesia que Temer representa nesse momento, ou as direções reformistas, que se apegam ao “mal menor” de um projeto igualmente burguês representado no Lula 2018?

Os que subtraem toda e qualquer possibilidade de uma revolução operária e popular no Brasil, tem lá seus motivos para apostar todas as suas fichas no campo das eleições, todas as suas energias na possibilidade de reformar o irreformável, todas as manobras teóricas para reorganizar o PT no campo das eleições, já que no campo da reorganização sindical e popular tem sangue negro e indígena derramado e direitos trabalhistas destruídos pelas mãos petista em conluio com a Direita.

Existe toda uma geração de lutadores, nada cordiais, que, enfrentado o petismo e a Direita, aprenderam nos últimos anos que o capitalismo não tem absolutamente mais nada a oferecer para os seus pares de classe a não ser desemprego, fome, miséria, genocídio, feminicídio e LGBTfobia. O reformismo, cumprindo seu papel histórico, tenta arrastar toda essa geração de bravos lutadores para o campo movediço das eleições burguesa ou para o colo político do PT. Veremos se conseguirão ou não.

Na outra ponta, Temer, o congresso e a burguesia ultraconservadora tentam impor as suas reformas da qualquer custo, podendo levar o país a convulsões sociais de consequências imprevisíveis. Por ora, não existe resignação por parte da nossa classe, mas sim um profundo ódio que os “de cima” estão a nutrir nos “de baixo”.

Não existe mais tempo a perder! Uma alternativa de classe com um programa que incorpore as demandas imediatas de todos os setores oprimidos e explorados e que esteja estritamente vinculado a estratégia socialista de tomada do poder pela classe operária e o conjunto do proletariado brasileiro, deve ser apresentado como única alternativa possível para resolver nossos problemas históricos.

[1] A hipótese do brasileiro como um homem cordial foi elaborada por Sérgio Buarque de Holanda, que caracteriza o brasileiro com um ser passional, preso a vida privada, que não entende nada de vida pública, que não questiona a dominação, pelo contrário, resigna-se perante ela, tal como o convívio harmônico da “Senzala” com a “Casa Grande” presentes nas reflexões de Gilberto Freire que influenciou fortemente Sérgio Buarque de Holanda

Sou apenas um trabalhador assalariado, casado com a companheira Irisnete Geleno, pai de quatro filhas(Ariany, Thamyres, Lailla e Rayara), morador da periferia (Boca da Mata-Imperatriz), militante partidário (PSTU) que assumiu algumas tarefas eleitorais como candidato (2006, 2008, 2010 e 2012) e que luta por uma sociedade COMUNISTA. Sempre fui e continuarei sendo a mesma pessoa de caráter que meus pais, minha escola, meus amigos ajudam a forjar. Um comunista escravo do modo de produção capitalista que não aceita a conciliação de classe defendida por muitos que se dizem de "esquerda", mas que na verdade são pequeno-burgueses que esperam sua chance no capitalismo.

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