A maior “fake news” do capitalismo

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Esse termo estrangeiro se tornou muito popular nos dias atuais onde circulam memes, comentários, opiniões e as famigeradas fake news a alcançando mais pessoas e lugares num curto espaço de tempo.

Na verdade, é uma nova palavra da moda para velhos significados existentes: desinformação, mentira, engodo, etc., desde o tempo em que fofoca era criada sobre os transeuntes da rua e do vizinho.

O sentido mais correto para “fake news” é uma falsa verdade, porque ela pode a informação que se quer passar pode até está fundamentado em informações verdadeiras, mas interpretadas de forma a quem interessa.

Até mesmo em veículos de comunicação reconhecidos essas falsas verdades encontram espaços para se disseminarem como uma nova verdade, novamente, de acordo com o interesse de quem a quer transmiti-la.

Na sociedade capitalista está cheio de exemplos de fake news que se propagam desde que o esse modo de produção passar a ser hegemônico (século XVI). Vamos exemplificar uma dessas desinformações muito aceitas, mas contestadas por outras teorias/ideologias que surgiram ao conhecer como funciona esse modo de produção e acumulação.

Observe o teste na página do Uol/Economia, em que o resultado lhe colocaria em uma posição de “classe social”, o termo em si já atende pelo menos dois princípios de uma fake news: o de passar uma desinformação com uma falsa verdade e o de atender os interesses ideológicos da classe dominante (infimamente menor em quantidade nas sociedades modernas).

Print do teste publicado na página do Uol/economia (29/12/2020)

O tal teste dá a ideia, dependendo o resultado econômico-financeiro, que você estaria na classe social dos ricos (burgueses) ou dos pobres (trabalhadores) é falsa porque classe social no teste é definida apenas pela renda mensal da família (dinheiro). Por essa métrica, uma família que auferisse em um mês uma renda substancial poderia estar/ser rico, e no outro mês, não conseguindo manter a renda de rico, retornaria para a classe dos pobres.

Assim a passagem de uma classe para outra funcionaria como uma gangorra, onde a mobilidade entre as classes dependeria apenas do quanto ele ganha, e desconsidera como ele ganha. O que Marx vai dizer que pertencer a uma classe social depende da posição que o individuo ocupa na produção material e reprodução da vida.

O termo correto que o teste deveria utilizar era “classe econômico-financeira você pertence?”, pois os resultados possíveis (A, B, C, D, E…) estaria se referindo ao seu padrão de consumo de mercadorias e serviços, ou seja, uma classificação em faixa de consumo tendo a renda como parâmetro.

Voltemos então a Marx, como seria a classificação de classes sociais, segundo sua ideia de posição na produção material e da vida? No manifesto do Partido Comunista de 1848 (MARX e ENGELS, 2007) — mas não só nesse texto — as classes sociais foram arranjos sociais que dependeram do modo de produção: processo pelo qual os homens atendem suas necessidades materiais na transformação da natureza. Vamos recorrer à História para exemplificar com dois modos de produção: na sociedade grega antiga, havia duas principais classes sociais os Cidadãos Gregos, detentor do modo de produção material e política, e Escravos, responsáveis por utilizar os meios e a força de trabalho para atender as necessidades dos Cidadãos Gregos. No feudalismo, as duas principais classes sociais se dividiam entre os senhores feudais e servos. Uma hierarquia muito parecida com a encontrada no Império Romano com os patrícios e plebeus. Senhores feudais e Patrícios em cada época com o poder políticos diferentes, mas se assemelhando no controle das terras para o cultivo de alimentos. Aos servos e plebeus cabiam o trabalho direto na terra, tendo uma dependência econômica e de servidão.

E no capitalismo, como se apresenta essa posição? É aqui que entra a ideologia e o poder da falsa verdade das fake news empregadas pela classe dominante, o de negar essa divisão da sociedade em classes ou que é possível uma mobilidade que depende exclusivamente do individuo.

Assim como nos exemplos acima, o capitalismo é o modo de produção, sua posição nele é que determina sua posição de classe social. Nele também são duas as principais e antagônicas classes sociais, a dos burgueses (exploradores e detentores dos meios de produção) e a dos proletários (explorados detentores apenas de força de trabalho). A mediação dessa exploração está na forma da compra da força de trabalho assalariado — trabalho “livre” —, assim, mesmo que um sujeito aufira uma renda mensal de R$100.000/mês vendendo sua força de trabalho assalariado ou não, esse pode até pertencer à classe econômico-financeira “A” (“rico”), mas nunca pertencerá classe social dos burgueses enquanto depender exclusivamente de si para gerar renda.

A mobilidade de classe social em raríssimas ocasiões pode ocorrer: um membro da classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2009), passando a explorar a força de trabalho de outro trabalhador que passe a acumular capital (dinheiro) suficiente a adquirir um meio de produção (empresa, fábrica, indústria, etc.) ou ganhe um prêmio milionário da loteria e passe a viver exclusivamente de juros. Mesmo isso acontecendo, passando a ter capital e meio de produção que lhe garanta a ascensão de classe, ele ainda terá que assegurar ser reconhecido como detentor do direito de pertencimento entre os membros da burguesia.

Se a arte imita a vida, então as telenovelas trouxeram dois exemplos dessa necessidade de emergentes sociais necessitarem conquistar o reconhecimento de classe por parte do burgues raiz (de berço e alma): na novela “Rainha da Sucata” e “Fina Estampa” (REDE GLOBO, 1990, 2012) tiveram como protagonistas duas trabalhadoras que ascenderam de classe, uma pelo trabalho e acumulação de mais-valia de terceiros e outra por um prêmio de loteria. Ambas, mesmo tendo capital econômico não foram bem recebidos por seus pares de classe.

Em suma, muito cuidado com as fake news, em todas as áreas da sociedade elas são utilizadas para disseminar uma ideologia, a ideologia da classe dominante para manter o poder político e econômico frente à classe-que-vive-do-trabalho que tem verdadeiramente o poder revolucionário de destruir a sociedade dividida em classes.

Sou apenas um trabalhador assalariado, casado com a companheira Irisnete Geleno, pai de quatro filhas(Ariany, Thamyres, Lailla e Rayara), morador da periferia (Boca da Mata-Imperatriz), militante partidário (PSTU) que assumiu algumas tarefas eleitorais como candidato (2006, 2008, 2010 e 2012) e que luta por uma sociedade COMUNISTA. Sempre fui e continuarei sendo a mesma pessoa de caráter que meus pais, minha escola, meus amigos ajudam a forjar. Um comunista escravo do modo de produção capitalista que não aceita a conciliação de classe defendida por muitos que se dizem de "esquerda", mas que na verdade são pequeno-burgueses que esperam sua chance no capitalismo.

Discussão1 comentário

  1. Deisy de Araújo Pereira

    Muito bom esse texto. Analogias á nossa realidade que é nua e crua. Classes dominantes sempre conseguindo driblar as consciências daqueles com menos informações verdadeiras. Parabéns pela reflexão.

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